sábado, 28 de fevereiro de 2015

Denunciando ProAtlântico

Da vergonhosa prestação da organização ProAtlântico no âmbito do SVE


            Sempre quis ser voluntária. Consegui uma oportunidade de voluntariado no âmbito do programa Serviço Voluntário Europeu (SVE), programa este financiado pela Comissão Europeia.
            Comecei em fevereiro de 2014 a trabalhar numa aldeia na Extremadura, Espanha, chamada Vivares. O meu papel era cuidar de crianças num jardim de infância e dar aulas de português e inglês. Mas eu queria fazer mais, muito mais… Com formação em teatro, música e larga participação em eventos culturais, a minha cabeça fervinhava… Mas eu estava sozinha. O grupo de teatro que quis organizar nem arrancou, o ciclo de cinema sim, mas torto, e não sobreviveu muitas semanas, pois a minha organização de acolhimento, Cerujovi, em nada me apoiou. Contudo, fui-me envolvendo com as gentes da aldeia, participei em várias atividades de lazer da terra, sempre em clima de grande boa disposição, fui bem tratada pelos locais, fiz amigos.
            Por outro lado, a minha organização Cerujovi menorizava as minhas queixas relativas à falta de água quente na casa dispensada aos voluntários, à presença de ratos, lesmas e baratas pela casa e à invasão sucessiva da minha correspondência.
Ia dando conta de tudo o que se passava à minha organização de envio, a ProAtlântico, sedeada em Oeiras. Primeiro, mostravam-se disponíveis para tudo o que eu precisasse, mas de repente deixaram a figura de atenciosos para desempenhar a figura de irresponsáveis.
Acontece que, indo os problemas sendo resolvidos, eu estava realmente a desfrutar do meu voluntariado: aprendi muito, ganhei auto-confiança porque as pessoas com quem trabalhava diretamente me valorizavam e me tratavam bem, estava bem adaptada ao local e à rotina que levava.
Ora, logo após a minha companheira de casa ter voltado para a sua motherland Suécia, houve bomba. Chegava a casa e havia sinais vários de que alguém lá tinha estado. Estranhei. Como tornou a acontecer num domingo, eu contactei a minha tutora (a pessoa supostamente imparcial que deve zelar pelo bem-estar dos voluntários, mas que era trabalhadora contratada pela Cerujovi) para lhe pedir explicações e manifestar o meu desconforto. Mais uma vez, ela negligenciou a minha opinião, e como lhe dissesse que ia dar conta do sucedido à ProAtlântico e à Agência Nacional Espanhola, a organização hierarquicamente superior, marcou reunião comigo, na qual me anunciou que me expulsavam do projecto e da casa, mesmo eu tendo ainda dias de férias por usufruir, que, pelas regras do SVE, o poderia fazer ainda nas suas instalações. Intimaram-me ainda a devolver-lhes dinheiro.
Imediatamente pedi às pessoas que trabalharam comigo que me escrevessem relatórios confirmando a nossa boa cooperação, para que não me acusassem ainda de má trabalhadora (era o que faltava!), o que de bom grado fizeram, incluído o Presidente da Junta de Freguesia.
O representante da Agência Nacional Espanhola veio a Vivares, deu-me razão, repreendeu os coordenadores da Cerujovi e ficou assente que eles teriam que pagar-me a viagem de volta a Portugal, bem como o gasóleo que havia abastecido no carro deles, no valor de mais de 120€. Nunca o fizeram. Porém, a ProAtlântico recebeu integralmente todo o seu dinheiro como se eu tivesse efetivamente cumprido o projeto até ao fim. A sua postura foi sempre “Entendam-se!”, “Resolvam-se!”, quando as coisas começaram a dar para o torto. Se a voluntária ficava no olho da rua com uma mão à frente e outra atrás, sem dinheiro sequer para voltar para casa? Oh, mas isso não interessa nada!
Ou seja, falando em bom português: fui enganada. Andei a dar o litro para fazer coisas úteis e bonitas no seio de uma comunidade generosa e fui corrida a pontapé, humilhada – pelas organizações, diga-se! Dos dois lados da fronteira encontrei organizações que de humanitário não têm nada; são, sim, constituídas por pessoas pura e simplesmente interessadas no pilim que pinga dos cofres da Comissão Europeia e disso fazem carreira. Vida fácil: aproveitar-se dos badamecos dos jovens de bom coração (que, como estão desempregados, chovem aos molhos), que ainda pra mais só podem fazer o SVE uma vez, atirar-lhes para os braços umas criancinhas larocas e pô-los a falar línguas, independentemente de passarem por algumas violaçõezitas de privacidade e insultos morais pelo meio.
            Nem a ProAtlântico nem a Agência Nacional Portuguesa me voltaram a responder quando lhes disse umas verdadezinhas – é porque a carapuça lhes serviu…
            Finalmente, aprendi muito e considero a minha experiência extremamente positiva, na medida em que evolui enquanto profissional, recuperei uma auto-estima que andava de rastos, redescobri-me enquanto ser pensante e animal social, conheci pessoas de muito valor, que estiveram incondicionalmente do meu lado, até hoje, e continuarão a estar. Pessoas que me disseram “Tens a razão, por isso luta”, que me abriram as portas das suas casas, que me contaram o cadastro que esconde a Cerujovi – essas atitudes não têm preço.
            Posso estar num momento etéreo, mas termino dizendo que o crime não compensa e que quem tem um coração bom e justo é mais feliz.

            Oxalá consiga evitar que outros jovens caiam nesta rede centrifugadora que é a do trabalho de burro de carga ou trabalho de pasmaceira disfarçado de voluntariado.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

How to survive a volunteering service with Cerujovi (Centro Rural Joven Vida)

How to survive a volunteering service

I’ve always wanted to be a volunteer. To give people something, to learn, to help, to be available. An opportunity shaped up: to be a volunteer in the village of Vivares, in Extremadura, within European Voluntary Service.
I arrived there in february and for the following six months, I experienced the best of the human soul – working with kind and welcoming people and receiving solidarity and affection from my neighbours. However, I also suffered the worst treatment from the host organization, Cerujovi (Asociación Centro Rural Joven Vida) – which, after violating my mail, humiliating me and hurting my intimacy, put me on the street without money and under threat, denying me the payment of my travel back to my country as well as the return of the expense of gasoil I had put in their car. I resisted, I survived.
I was able to survive but if they treat their volunteers like this, I wonder what risks their employees might incur in and above all the people they are expected to protect – they are especially vulnerable because of their age or their disabilities… I am afraid of what might happen to them, because I couldn’t see any effective supervision that can protect them.
Boy/Girl: if, like me, you have always dreamt of being a volunteer, let me give you some advice so you can survive better than me:
                Don’t show you can understand or speak Spanish. If you already master the language (or when you do) use that ability only to know the country and the people better, but for Cerujovi  keep pretending that you neither understand nor speak Spanish. This way you will save yourself from some humiliation. But if you are interested in travelling across the country, learning about its people and their heritage, you ought to do it by yourself, since Cerujovi won’t introduce you to anything. You will see there are so many things to discover in Extremadura and Spain… so much to fall in love with. It is really a shame that Cerujovi makes an effort to make so many volunteers leave the service with an idea of Spain far more negative than it should be.
                It is better you don’t speak nor think. You must just smile, agree with everything. Don’t make any suggestions, don’t take any initiative. If there is no work to do, make yourself comfortable with the dolce fare niente. Adapt, because you will need your adaptability capacity to stand up with cockroaches and mice in your accommodation, to have cold water showers in winter, to live with lack of money for food, because they don’t pay you on time, to have your letters opened and having the supervisors entering your home and your bedroom without knocking on the door, to watch your intimate belongings when you are out.

                Remember the dummy models in the shop window? They don’t eat, don’t speak, don’t think, but they smile all the time – these are the ideal volunteers. It is true that shopwindow dummies don’t work either, but that is what matters the least. Keep not thinking, because if Cerujovi pays you your statutory holiday, it’s certainly because they make a profit with it…

Cómo sobrevivir al voluntariado con Cerujovi (Centro Rural Joven Vida)

Cómo sobrevivir al voluntariado

Siempre quise ser voluntaria. Ofrecer algo a los demás, aprender, ayudar, estar disponible. Me surgió la oportunidad de hacerlo en la localidad de Vivares, en Extremadura, bajo el Servicio Voluntario Europeo, programa de la Comisión Europea.
Allí llegué en febrero y, en los seis meses siguientes, experimenté lo mejor del alma humana – en el trabajo con la gente amable y acogedora, en la solidaridad y el cariño de los vecinos. Sufrí también los peores tratos de la organización de acogida, Cerujovi (Asociación Centro Rural Joven Vida) – que, tras violar mi correspondencia postal, humillarme y herir mi intimidad, me echó en la calle sin dinero y bajo amenazas, negándome incluso pagar mi viaje de vuelta a mi país y devolverme el dinero del combustible que había echado en su coche. Resistí, sobreviví.
Pude sobrevivir, pero a mí me da miedo pensar que si tratan así a los voluntarios, qué riesgo corren los trabajadores y, sobretodo, las personas que les están confiadas y que, por su edad o por padecer de alguna discapacidad, son especialmente vulnerables… Me da miedo porque no veo cualquier supervisión eficaz que les proteja.
Chico/a, si, como yo, siempre soñaste ser voluntario/a, te dejo algunos  consejos para que puedas sobrevivir mejor que yo:
No comprendas ni hables español. Si ya dominas la lengua (o cuando lo hagas), utiliza esa capacidad para conocer mejor al país y a la gente, pero para Cerujovi sigue fingiendo no entender ni hablar la lengua. Así te resguardas de algunas humillaciones. Pero si te interesa visitar el país, aprender sobre su gente y su patrimonio, trata de hacerlo por tu cuenta, ya que por Cerujovi nada vas a conocer. Verás que en Extremadura y en España hay tanto que descubrir… tanto por qué enamorarse. Es una pena que Cerujovi haga con que tantos voluntarios salgan del voluntariado con una idea de España mucho más negativa de lo que debería ser.
Como no hables, tampoco pienses. Sólo tienes que sonreír, que estar de acuerdo con todo. No hagas sugerencias, no tomes iniciativas. Si no hay trabajo, acomódate al dolce fare niente. Acomódate, porque hará falta que te acomodes también a que haya cucarachas y ratones en la casa, a ducharte con  agua fría en invierno, a que el dinero para la comida no sea puntual, a que tu correo sea abierto y que entren en tu casa sin golpear y en tu habitación a ver tus intimidades cuando no estás allí.

Fíjate en los maniquíes de los escaparates: no comen, no hablan, no piensan, sonríen siempre – son los voluntarios ideales. Es cierto que tampoco trabajan, pero eso es lo que menos importa. Sigue no pensando, que si pasas unas vacaciones pagadas por los contribuyentes, es porque eso a Cerujovi les conviene…