Da vergonhosa prestação da organização ProAtlântico no âmbito do SVE
Sempre quis ser voluntária. Consegui uma oportunidade de voluntariado no âmbito do programa Serviço Voluntário Europeu (SVE), programa este financiado pela Comissão Europeia.
Comecei em fevereiro de 2014 a trabalhar numa aldeia na Extremadura, Espanha, chamada Vivares. O meu papel era cuidar de crianças num jardim de infância e dar aulas de português e inglês. Mas eu queria fazer mais, muito mais… Com formação em teatro, música e larga participação em eventos culturais, a minha cabeça fervinhava… Mas eu estava sozinha. O grupo de teatro que quis organizar nem arrancou, o ciclo de cinema sim, mas torto, e não sobreviveu muitas semanas, pois a minha organização de acolhimento, Cerujovi, em nada me apoiou. Contudo, fui-me envolvendo com as gentes da aldeia, participei em várias atividades de lazer da terra, sempre em clima de grande boa disposição, fui bem tratada pelos locais, fiz amigos.
Por outro lado, a minha organização Cerujovi menorizava as minhas queixas relativas à falta de água quente na casa dispensada aos voluntários, à presença de ratos, lesmas e baratas pela casa e à invasão sucessiva da minha correspondência.
Ia dando conta de tudo o que se passava à minha organização de envio, a ProAtlântico, sedeada em Oeiras. Primeiro, mostravam-se disponíveis para tudo o que eu precisasse, mas de repente deixaram a figura de atenciosos para desempenhar a figura de irresponsáveis.
Acontece que, indo os problemas sendo resolvidos, eu estava realmente a desfrutar do meu voluntariado: aprendi muito, ganhei auto-confiança porque as pessoas com quem trabalhava diretamente me valorizavam e me tratavam bem, estava bem adaptada ao local e à rotina que levava.
Ora, logo após a minha companheira de casa ter voltado para a sua motherland Suécia, houve bomba. Chegava a casa e havia sinais vários de que alguém lá tinha estado. Estranhei. Como tornou a acontecer num domingo, eu contactei a minha tutora (a pessoa supostamente imparcial que deve zelar pelo bem-estar dos voluntários, mas que era trabalhadora contratada pela Cerujovi) para lhe pedir explicações e manifestar o meu desconforto. Mais uma vez, ela negligenciou a minha opinião, e como lhe dissesse que ia dar conta do sucedido à ProAtlântico e à Agência Nacional Espanhola, a organização hierarquicamente superior, marcou reunião comigo, na qual me anunciou que me expulsavam do projecto e da casa, mesmo eu tendo ainda dias de férias por usufruir, que, pelas regras do SVE, o poderia fazer ainda nas suas instalações. Intimaram-me ainda a devolver-lhes dinheiro.
Imediatamente pedi às pessoas que trabalharam comigo que me escrevessem relatórios confirmando a nossa boa cooperação, para que não me acusassem ainda de má trabalhadora (era o que faltava!), o que de bom grado fizeram, incluído o Presidente da Junta de Freguesia.
O representante da Agência Nacional Espanhola veio a Vivares, deu-me razão, repreendeu os coordenadores da Cerujovi e ficou assente que eles teriam que pagar-me a viagem de volta a Portugal, bem como o gasóleo que havia abastecido no carro deles, no valor de mais de 120€. Nunca o fizeram. Porém, a ProAtlântico recebeu integralmente todo o seu dinheiro como se eu tivesse efetivamente cumprido o projeto até ao fim. A sua postura foi sempre “Entendam-se!”, “Resolvam-se!”, quando as coisas começaram a dar para o torto. Se a voluntária ficava no olho da rua com uma mão à frente e outra atrás, sem dinheiro sequer para voltar para casa? Oh, mas isso não interessa nada!
Ou seja, falando em bom português: fui enganada. Andei a dar o litro para fazer coisas úteis e bonitas no seio de uma comunidade generosa e fui corrida a pontapé, humilhada – pelas organizações, diga-se! Dos dois lados da fronteira encontrei organizações que de humanitário não têm nada; são, sim, constituídas por pessoas pura e simplesmente interessadas no pilim que pinga dos cofres da Comissão Europeia e disso fazem carreira. Vida fácil: aproveitar-se dos badamecos dos jovens de bom coração (que, como estão desempregados, chovem aos molhos), que ainda pra mais só podem fazer o SVE uma vez, atirar-lhes para os braços umas criancinhas larocas e pô-los a falar línguas, independentemente de passarem por algumas violaçõezitas de privacidade e insultos morais pelo meio.
Nem a ProAtlântico nem a Agência Nacional Portuguesa me voltaram a responder quando lhes disse umas verdadezinhas – é porque a carapuça lhes serviu…
Finalmente, aprendi muito e considero a minha experiência extremamente positiva, na medida em que evolui enquanto profissional, recuperei uma auto-estima que andava de rastos, redescobri-me enquanto ser pensante e animal social, conheci pessoas de muito valor, que estiveram incondicionalmente do meu lado, até hoje, e continuarão a estar. Pessoas que me disseram “Tens a razão, por isso luta”, que me abriram as portas das suas casas, que me contaram o cadastro que esconde a Cerujovi – essas atitudes não têm preço.
Posso estar num momento etéreo, mas termino dizendo que o crime não compensa e que quem tem um coração bom e justo é mais feliz.
Oxalá consiga evitar que outros jovens caiam nesta rede centrifugadora que é a do trabalho de burro de carga ou trabalho de pasmaceira disfarçado de voluntariado.
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